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UM ENSINO SUPERIOR DEPENDENTE DAS ESTRELAS

Atualizado: 8 de Mai de 2019

Para os profissionais de Educação: professores, gestores, pesquisadores e outros, a leitura cotidiana do noticiário sobre educação sob o governo Bolsonaro tem sido algo entre desanimador e aborrecido. As evidências que faltam na sustentação argumentada de decisões políticas (fortemente ideológicas), sobram para indicar a ausência de rumos no Ministério da Educação. O ministério responsável pelo segundo orçamento da União sofre com a escolha de gestores sem conhecimento específico numa área tão essencial para o desenvolvimento socioeconômico e para a democracia do nosso país.


A mais recente das trapalhadas do ministro Abraham Weintraub, que ocorreu no anúncio da aplicação do Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb) em 2019, beira o inacreditável: um ministro da Educação, que é economista e ignora o evidente contrassenso que seria pretender aplicar uma avaliação de educação básica para quase sete milhões de alunos com um orçamento de R$ 500 mil, demonstra pelo menos uma de duas coisas: formação ruim na área de economia ou desconhecimento da realidade mais elementar das políticas educacionais do país. Os custos da avaliação, cuja subestimação grosseira passou incólume à atenção do ministro, foram corrigidos pelo Inep horas depois. Além de indicar um profundo desconhecimento do que é o sistema brasileiro de avaliação da educação básica, o ministro demonstrou despreparo ao ser incapaz de defender com argumentos técnicos estatísticos a realização da prova para o segundo ano como um teste amostral, algo perfeitamente válido, como indicaram os próprios técnicos do Inep.

Na área do ensino superior as sandices vão se empilhando.

E mostram-se como sandices justamente porque as ações e discursos nessa área sequer podem ser vistas como ideológicas, pois não dispõem de qualquer sistematicidade ou racionalização. Júpiter ficou de mau humor pela sua posição no sistema solar e irritou-se com três ou quatro protestos de estudantes. Soltou seus raios cortando 30% do orçamento de algumas universidades federais. Como houve reclamações – algumas mais adequadas e justas que outras, mas todas chamando a atenção para a liberdade de manifestação nos campi – Júpiter ficou ainda mais irado e cortou o orçamento de todas as universidades e institutos federais. As razões alegadas são tão estapafúrdias que só podem ser desígnio dos astros: no primeiro caso, cortou-se alegando falta de qualidade das instituições (bem classificadas nos rankings internacionais e nacionais). Em seguida, o corte generalizado foi atribuído às necessidades econômicas.

Em momento algum os dois ministros ouviram a vasta e bem articulada comunidade acadêmica, as representações dos dirigentes de universidades, os diferentes institutos e grupos de pesquisa que congregam técnicos especializados no tema, inclusive dentro do próprio ministério.

Com a imensa lista de assuntos sérios e carentes de melhor debate numa área tão estratégica para o país, a sucessão de equívocos e trapalhadas produz desalento em todo o espectro de posições políticas que atuam na Educação. Fica a sensação de que estamos num navio cujo comandante dispensa seus geógrafos e navegadores experientes, esconde a bússola e o astrolábio, e manda chamar um mago qualquer para descobrir, através do seu horóscopo, que direção deve dar ao navio em meio à tempestade.

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